quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O CIRCO

Uma tarde de lama que beirava  céu
dois garotos pobres corriam  ao circo outros tempos
tanto ar, maçã do amor, tormentos, algodão-doce não podiam comprar
fétidas jaulas expostas à visitação dos racionais
apontavam a tristeza  dos seres animais
então barulhavam zoológicos, gritavam horas no relógio
não havia comida há semanas
a leoa enjaulada o monte observava parada
os garotos olhavam os olhos da rainha coitada
a felina molhava a língua, e sua íris  deslocava-se devagar ao longe  gado  a pastar
o circo  desastre de miséria
parecia afundar debaixo de uma covarde chuva etérea
a pobreza revelava-se na fome que rugia nas jaulas
tudo  melhor que aquele horrendo lugar
pobres palhaços a matar-burros nas madrugadas
para saciar o dano, para evitar o pior dos urros do  dono
à noite havia espetáculo, Sim Senhor!
mesmo sem tudo, nada  podia parar
come-se e bebe-se taças de azar
vive-se o direito da corda bamba
Os olhos infantis observavam a multidão entrar
O globo da morte era a salvação, a sorte
e esperavam os meninos um  milagre para participar, não iriam entrar
esperavam um deus que não tardasse e que não lhes trouxesse ingressos
Pedir a mãe não deixava, tinham dignidade mesmo que não assistissem, mesmo que não existissem
mesmo que não vissem  motocicletas em fogo virar
Qual não foi a surpresa quando o louco da cidade sorriu para os garotos
e em frases que só criança  entende
lhes mostrou duas entradas sem troco, era o deus que chegava para lhes salvar
os garotos estavam dentro da lona, a lona rasgada por onde  viam as estrelas que precediam a madrugada
começava  espetáculo, artistas malabaristas, sombrinhas furadas
moça que se enrosca em panos, bailarinas sem nome
animais com olhos tristes venciam a dor do chicote da fome
e ao final o globo fatal, luzes no chão  da escuridão
medo do mistério de outra civilização
Surpresa motocicletas  se queimam
gritos, sussurros tudo tratado alívio da pena
termina a sessão, flores de papelão
passos  ágeis , correria, olhares poucos afundam na lama
os garotos felizes  a casa , a mãe os espera,
então agradecidos
de um dia pobre , de um mendigo louco
verdadeiro artista de uma estrada de terra..

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