A enfermeira entra na sala e troca o soro
pin...pin.. pin.. de tanta dor em mim, enjoo
a nonagenária abre o olho e observa a sala
as pálpebras quase cerradas do rosto inchado
de um sentimento vago que vive em quem vai partir
a lembrança do marido gritos cavalos
dos invasivos filhos não queria ter tido
de uma vida não sua por outros vivida
nem por ela ali...assim..,devastação próxima do fim.
Os parentes finalmente se vão, alívio que desce do corredor ao chão.
E ao som do soro vitrola um outro tempo festança
volta ao baile de sua Aurora, menina, pouco mais que criança
um baile diáfano, um dia que em sua vida existiu
um rapaz de muito longe a lhe pedir para gentil
suas faces rubras, suas irmãs risinhos a caçoar
seu pai na viola, era o festeiro, diz que poderia com o moço bailar
e bailam ao som de uma guarânia..(.lá,raláralárárárá., ai que saudades eu tenho dos tempos de aurora....) todos riam lembrança
sua felicidade aos passos de sua primeira dança
infinitos minutos...momentos revisitados
separaram-se olhares então desviados
os olhos dos dois apaixonados
ele a um canto, ela sentindo-se amada
eram então namorados.
Quando dia seguinte, o rapaz vai a sua casa
e pede-lhe a mão...
o pai bonachão
diz sorridente que em sua casa aceitava o varão
desde que desposasse a filha mais velha
costume de outras eras de então
o moço se indignou,olhou nos olhos dela ,
montou no cavalo e se foi
Ele ao longe, dela apenas lagrimas de corrimão
o tempo passou, ela se casou- com os tristes olhos sem esperança
casamento antigo mineiro
havia um tropeiro que gritava o dia inteiro
Uma família que só pensava em terra, dinheiro ...
pin.. pin..pin. lembranças em mim
Ao quarto está de volta
olha mais uma vez o soro,a enfermeira amiga deve voltar
lembra então que ainda está viva e a lembrança deste dia é sua maior forma de amar.
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