domingo, 14 de setembro de 2014

O CASO DA PANELA DE ANGU

Contrataram-na
ela, todos sabiam, estava sozinha  sete filhos
sete panelinhas  teria que encher todos os dias
a patroa, a madama branca não pensou em lhe fazer a alma sofrer
Dizia a princesa loira ,como pode essa gente fazer filho  tal qual animal presa ?
ela,a décima nova empregada negra, mulher guerreira, permanecia calada na sala sem canto, sem pranto, sem lagosta
vendo todos os impropérios de sua  chefe, sua dona provisória  rica de carnês e sabores
coitada da etíope mulher, não sabia ainda o que era a vitória, o que de justo trabalho seria sua verdadeira história.
Recebia uma miséria e comprava angu, sua história, seu prato cru.
Batia em seus filhos de desespero para que dormissem
 fazia o alimento sem rima pois fome não dá liga.
acordavam então eles por angu sedentos
ela os alimentava com lágrimas nos olhos, lamento
e depois batia novamente para dormissem e ela esquecesse quem era
o que passavam não entendiam por pouca idade  sonhavam guloseimas de verdade
 Ela era a panela vazia sem vaidade, de ninguém
o marido havia conseguido na rua um namorada outrem
não ajudava mesmo nada em casa
Um dia, sumira, para alívio dela e dos filhos pequenos
uma dia a justiça chegaria, mas há justiça para quem nada valia?
E ela valia muito, porque angu era seu arsenal de guerra
sua forma de comprar, seu modo de não surtar, suportar
As humilhações,  e estas cresciam a cada dia
A madama gostava de máscara de berinjela
fazia sua pele singela
e, naquele mês, de propósito, atrasou o salário
os gritos aumentaram.
Um dia, ela fazia polenta
a madame de raiva não aguenta
e a chama esfomeada, fedida, coitada
qual não foi a surpresa das duas, quando um panela de angu
voou em direção da cara da mulher rica
e fez uma nova máscara, coisa que doía
uma máscara de angu para quem dela carecia
Ela dali sumiu   em um golpe de vento
 mas a policia sempre acha pobre, intento
seja angu ou ali.
E acharam-na chorando ao pé de sua cama com fome
prenderam-na, bateram em seu corpo
tiraram dela os filhos.
Saiu alquebrada da cadeia,
 hoje os filhos lhe são devotos
E sorri sozinha  quando se lembra que a justiçam de um pobre nu
muito bem pode ser uma panela de angu.






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