sábado, 23 de abril de 2016

NOVO TEMPO

Observou os olhos aflitos do rapaz e este se sentia então o mais importante homem que já viveu, desde as eras pretéritas. Disse ao mancebo::
-- Meu amor, sou mulher, não sorvete!
Então a tarde caiu e os pássaros fizeram nova revoada. Nascia assim um novo tempo.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

SEDE

Sabe, eu queria não me importar tanto
não me me emocionar tanto
não sorrir tanto
eu queria nem ser tanto 
eu queria apenas e aproveitar a simples existência.
mas dói em mim essa vontade de não me calar
dói em mim aquilo que eu nunca vi e vivo sedento para olhar
dói em mim o que não posso resolver
não há como somente ser
Invejo as árvores, as calhas, a chuva que cai nas veredas calmas
invejo o que é reto e razão feito pedra
Eu não queria ser esse vulcão dos pés de Phedra
eu não me dispo e me corto nos espinhos
eu sozinho, eu coletivo choro por ansiar
por querer o que não há
por não existir no meu coração a saciedade
por ver que os olhos viram o mundo passar
por querer ser eu e descobrir apenas o que não sou
por ser mais inquieto que a batida do martelo
eu, sei, que a duras penas me acalmo
e hei de cantar então no momento final do existir
o hino tosco dos que sofreram e passaram sedentos por aqui.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

BELA, RECATADA E DO LAR

BELA,RECATADA E DO LAR
bela, recatada e do lar
Amélia com medo de apanhar
olhos tristes de tanto chorar
fantasmagórica na rodovia a girar
Desamparada por não saber gritar
estranha dentro de sua própria caverna, lar de todos menos dela, e pela qual luta como fera.
Estátua de cera dos parentes a zombar.
Corajosa no silêncio do quarto
Mito dos filhos, pocilga da madrugada do macho marido
Bela, bêbada de tanto não ser
Criada para servir e sorver
boba com o olhos no chão
alimenta a própria escuridão.
Recatada quer fugir do lar
parar em um bar e começar a dançar
Mas sozinha e sem se dar por si , vira-se para o lado e volta a dormir.
Bela, recatada e do lar
treinada para obedecer e calar
os filhos nunca mais a olhar
sozinha espera o abraço da morte a lhe confortar.

domingo, 17 de abril de 2016

POEMA DE AMOR AO OPRIMIDO QUE QUER SER OPRESSOR NO DIA EM QUE O MUNDO PAROU

POEMA DE AMOR AO OPRIMIDO QUE QUER SER OPRESSOR NO DIA EM QUE O MUNDO PAROU.
O lugar do abandono é um um lugar detestado por todos os homens
o pequeno-burguês cria então o ódio de selo no coração do povo
para assim, recolher as cinzas de milhares de ideias novas que abortadas antes de germinadas garantam ao poderoso covarde a morte da criatividade da massa teleguiada.
Exposto por covardia ao ridículo de existir, armas em punho , o oprimido investe contra seus irmãos excluídos na esperança de encontrar no sangue derramado a sua falsa redenção.
Então apropria-se do discurso de quem historicamente o odeia
Sente-se importante quando privado de educação, saúde, segurança, cultura e existência de qualidade primeira.
Pensa pertencer a uma classe que não é a sua, como se a que frequentasse não valesse nada
Ser financeiramente desprovido de dinheiro não é crime,mas dar bom-dia ao assassino de sonhos é a maior imbecilidade de todas as que todos os dias o reprime de inúmeras maneiras
Então mando um grito de amor ao oprimido para que assim e sempre :
O pobre veja valor em outro pobre
A mulher veja qualidades em outra mulher
O gay respeite a existência de outro gay
O índio não entre em guerra contra outro índio
O negro não queira forçosamente ter um ridículo e mascarado embranquecimento .
O branco caricato não veja valor somente em Miame e Orlando sem facto.
Que esse país seja uma nação de todos e para todos
Não somente para o maldito que grita de gozo em paraísos fiscais
Que o povo brasileiro não mais ache bonito ser tratado como lixo
Ademais, que se revolte organizada-mente e faça deste lugar uma seara de todas as pessoas e terra fértil de inclusas e dignas sementes..

sábado, 2 de abril de 2016

SEM NOME

O meu sonho constrói navios oceanos de escuridão
perdido o rumo, tateio no porto do farol 
encontrar-se é perder-se como uma nau sem destino
meu coração bate, fina linha do desalinho
faço da palavra contada meu primeiro medo
minha ficção, a invenção do meu degredo.
Eu quero pular nas pálpebras e dançar sem pejo
Eu cego melhor me vejo.
O futuro me alcança, o verbo é a minha lança
eu corro , eu beijo a água da desesperança
e torturo minhas lembranças na
caverna do dia, na escuridão do sol
o desejo como uma imensa nódoa de lençol
eu sempre aqui a tecer a linha do tempo
a rasgar lágrimas no assoalho do veneno
a soar o rito dos torturantes cascalhos
eu perdido mais me encontro, eu falho, eu me calho
eu sendo assim me dispo de ser o que de mim esperam
eu sou o futuro que não conhecerei
eu vivo nesse tempo um presente de grego
Eu quero de mim o mais berro grito a coser as feridas do que se fez do infindo rito na gravidade do mais sublime pensamento..