quarta-feira, 20 de agosto de 2014

TRAJETÓRIA DO VEXAME DA BOA MENINA E DO BOM MENINO DE BEM

Quando nasceram ele disse buá, ela disse bué e todos aplaudiram de pé
e as duas famílias famintas, as duas crianças esperanças que os pais juraram que cresceriam unidos,os parentes, aqueles dos hospitais nunca mais se viram... mas os dois assim mesmo existiram
aos dois anos, ele já sabia de cor todos os palavrões, ela via no cretino pai um herói,  e era  o coitado um idiota sem noção
aos 5 anos ele gritava, berrava com sua mãe, ela a todo momento era repreendida pelo pai, pelos irmãos
ele sabia como matar em mundo de mentira, ela sabia como ignorar todos que não fosse de sua linha
aos sete anos ele fazia pirraça e gritava gol suado com os amigos sem entender o que era, ela fazia desenhos nas nuvens do céu, na fumaça do seu pai a bradar pela casa
aos quinze anos ele já não era virgem, tinha um casa de amor com uma cabrita, ela nem sabia o que era ser gente, mas falava mal das roupas da empregada negra,  a presença da garota lhe trazia vertigem
ele fazia luta de chinês, japonês ou coreano, ela não conseguia entender porque ele saia de madrugada e ela só podia ficar  em casa calada
aos dezoito ele mal sabia ler mas era um cara respeitado porque tinha carro, ela ficava horas no espelho a ver a própria imagem, separava as amigas entre decentes e vagabundas
ele falava mal de viado e andava com machos no campo de futebol abraçados, ela toda bonita parecia uma pata, versão idiota da bárbie fraca, todos riam dela, mas ela não sabia o que ninguém também sabia
Aos 21 ,ele se casou com uma submissa loira turbinada, feita para ele sob medida, todos riam e diziam que o casal era lindo e , sem saber escrever,o idiota vencia a vida, ela, não podia ainda namorar, seu amor era pobre, um rapaz que não condizia com suas rendas, mas a família vivia no carnê,e ele cria que possuía grandes direitos, grandes projetos a realizar, chacotas a fazer
aos 30, um ataque cardíaco levou-lhe o pai, ele chorou, porque homem não chora, fizeram uma selfie desta hora de fraqueza, ela em  segredo comemorava tanta ruína em sua vida, sua única certeza
Aos 45, ele já estava separado, vivia bêbado,danado, não cortava o cabelo e ficava no escuro da rua a conseguir  prazer à força e de graça, era o famoso tarado da cidade, ela então já havia se mudado, estudava agora de verdade, como reprimida que era,agora via ao celular a chamada de sua família, corria, desviava, não queria mais com eles conversar,. era sozinha , feliz, mas não teria mais contato com quem só pensava em roubar-lhe o sorriso, com quem só sabia comer e arrotar no prato
Aos cinquenta, ele só dizia palavrão, jogava sinuca e falava mal do seu irmão, subia na mesa do bar e ninguém mais o ouvia, o cursinho de inglês mal pago de nada lhe adiantou, sabia de tudo, só não sabia conversar ainda, era uma espantalho quase defunto, idiota imenso deste mundo
era um adolescente velho nas ruas a perambular, seu sonho de cristal agora  é a vergonha da família
ela estava em Miame comprando a loja toda, no avião , na volta, dando vexame
aos 80, ele em um cadeira de rodas estava,. não reconhecia ninguém, vivia das esmolas dos filhos do dono da padaria, lembrava que não se lembrava de quem era, todos imploram que sumisse de vez desta terra
mas o tratavam bem porque não conseguiam viver sem caridade,ela dizia toda a sua verdade em livros e aproveita para fazer o bem, mas sempre olhava  a quem
Para alívio geral,, aos 80 a morte o pegou, foi visto no corredor a gritar com o vento,  a esclerose antes o confundiu, ele que era o varão da família, ele o dono de todas as teorias,ficaram feliz porque ele sumiu, e  era enterrado em uma cova sem número, a vida justiça lhe fazia
Ela já tinha feito todas as plasticas, renunciado à passagem do tempo, não morria e não morrerá jamais , porque pegou um garota branca e loira para criar e lhe passar  toda sorte de preconceito, todo desrespeito aprendido em casa, nos quintais
ele foi um cara feliz porque aprendeu nesta vida a assoar o nariz, ela foi constante porque num lapso de instante grito,eu sou decente, não sou infame, não sou igual aos outros, nunca dei vexame..



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