quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A RAINHA DA PIPOCA

Vivia calada no fundo da sala, era de uma beleza diferente,
via-se ao espelho e cuidava de si, queria o mundo mas não a borracha dos dias
A  professora desenhava equações que só ela mesma entendia
a menina recendia beleza, ela ,fruto da natureza, irmã de todas as coisas do dia
a princesa de brinco de etíope residia naquela sala, havia grande espelho, mas todos  não a viam
viam-se somente e egoisticamente desejam o que jamais teriam
Um rapaz loiro, ela o queria, ela o olhava diferente ,e quando ele a via, sorria
ela encantada que fosse por ele, abria seu sorriso mais bonito ainda e assim seguiam os dias
se o mármore seco e frio nos dissesse daqueles dias diria que ela era a mais interessante
mas assim não se sentia, quando na esquina de sua casa passava, as abelhas em torno se si giravam
a lhe contar de outros zumbidos, a revelar-lhe o que jamais saberia
Sua infância de bonecas de pano seguiu tranquila, o pai bondoso, a mãe companhia, as irmãs não tinha
A parvoíce da mestra era tão tão grande que gritava que a primeira  menina da frente filha de empresário, seria a rainha da pipoca, a rainha de todas as pipocas que existiam,
grande alarido, ela em um canto queria e sabia ser verdadeiramente rainha, ou assim pensava em sua solidão de equações erradas, de risos dos  colegas, mas riam de si quando nada de mal fazia, nada, apenas lá estava
O rei do amendoim era o garoto loiro e rico, a rainha sairia então de uma rifa que venderiam
Ela com os pés doídos percorreu a noite e o dia, o vento e sua fantasia, pois ia de porta em porta e venderia, ah se não venderia cada bilhete daquela rifa e rainha de todas as pipocas explodiria
e mostraria à escola inteira que também tinha beleza, era pobre, mas de tão pobre bela, que a beleza a fazia
as borboletas as imploravam que desistisse da empreitada, os vaga-lumes para ela acendiam o dia a lhe contar que o prêmio maior ela já conseguia, pois viva estava e criaria para si um nome, uma estada neste mundo de covardia, uma vontade de alegria que em si não existia, um novo acordo com as pedras e com as flores do dia, cantos da aurora de sua adolescente vida, vida na marra, vida maria
vendeu todas as rifas, era então a tal rainha... a escola não acreditou quando as rifas zeradas nas mãos da benevolente professora pousou... a grande educadora pensou, quando pensava e disse sorrindo, que bonito garota,  tu és esforçada, assim teria o mundo a seu pés, muito mais que velhas flores de estrada
naquele dia, a rainha nova diferente , a rainha da pipoca sonhou com seu loiro príncipe e disse a si mesma que venceria todos os obstáculos que a impediria
mas as voltas do mundo são maiores que a inocência tardia, e no dia seguinte, a professora à porta da a esperava sorrindo, riso cínico de quem era infeliz e a garota triste nem ninguém sabia
esperou  todo o espetáculo, esperou a plateia toda reunir-se
e disse em alto brado, que lindo o que a menina fazia, mas a filha do empresário da esquina tinha comprado dois lotes da mesma rifa, o capital vencia a poesia
assim ela, a menina rica e branca seria a rainha da pioca sem nunca ter sido por não ter lutado por aquilo
a menina lutadora  e pobre todo o céu em compaixão  a via, toda a terra tremia com sua tristeza, rainha de pipoca só pode ser filha de rico com certeza
e que casal bonito, para eles, feito com o dinheiro deles existia, subiu ao palco e a escola aplaudia
a rainha da pipoca do ano e o rei do amendoim eram bem parecidos com os do ano passado e de todos os anos que naquele havia
e ela em um canto calada , nem segundo lugar, nem nada, ficava a contar para si de que quase não existia
foi embora para casa, os grilos cantavam, a consolavam, e chorou o mais triste choro sentido no mundo
e dormiu sem sonho, porque sonhar é coisa de rico.


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