domingo, 17 de agosto de 2014

AS MÃOS DA PRIMEIRA MÃE DO MUNDO

A mão que pega na panela de pressão em brasas de tão quente
 me diz sorridente que o tempo muito lhe ensinou
Essas mãos são as mãos de um tempo antigo e as mãos que venceram o medo e revieram naquele dia em que retornei o segredo da força de existir
Minha infância, imensa e repleta de esperanças desapareceu no meu egoismo por reconhecimento
saí por uma porta menino e voltei por outra homem feito dono da verdades, das teorias, análises sociais
Fiz da palavra e o gesto meu ganha-pão, esqueci-me então daquelas mãos, daquela força que não precisava prever, analisar para ser, apenas era, e em sua simplicidade bastava estar na cozinha, no quintal, porque eram dona de todos os sóis., de todos os limpos lençóis
Eu canto o canto maior de todas as mães que pacientemente suportam a lição covarde da vida,em compreensíveis gratidões, em cantos de louvor, espalhar amor por décadas o seu amor profundo que por ninguém foi amada.
diziam apenas das mãos das mães, das mãos de nossa estada, da mãos estrada a nos indicar o futuro de nossas doces moradas
Esquecemos do que éramos e por esquecer a casa instante, esquecemos também dos exemplos bons sem fala, daqueles exemplos de doce bravura que inunda a sala, que ouve berros bêbados e se cala
que também se revolta, mas conhece algo além do que vou conhecer, que sabe viver e se esquece de sobreviver
Não há grandes elogios, não há imensos rios de lágrimas na porta vazia de sua casa, não há mais esta força que vence os metais, mesmo que quentes e revela ao mundo que outro mundo de generosos sente, para mim inconscientes, mãos que desafiam o mundo em silêncio, mãos que me indicam que há força também em mim
por mais absurdo que agora já não me vejo, essas mãos da pressão são as mãos do verdadeiro segredo
Idealizei o mundo, fui fundo em ignotas reflexões, logo esqueci de quem eu era, um menino a aprender  com estas mãos de outras eras, outros segredos de então
a casa toda é pintada para o domingo,  o sal da esperança me funda o fundo de minhas reflexões
desde a primeira mãe do mundo em suas mãos que acalentam a revolta infinda, a revolta dos seres ainda sementes, a gritar-lhe minha mão, minha mãe que tudo suporta chorando atrás da porta
como se não tivesse sua revolta e  abrisse as mãos generosas, como que se cuidasse durante muito tempo também de sua  já inexistente mãe.
as mães, as mãos macias das mães,o grito que por muito foi abafado por vozes covardes
o grito da primeira mãe  aquela que nos abraça em casa , na praça, aquela que nos revela a nossa ingratidão
a primeira mão do nascituro é também a mão calejada pelo tempo futuro, e
 que não tem medo da dor, porque com sua força de mãe renunciou ao seu destino outro, e criou filhos bons, filhos tortos e transformou toda maldade na expressão verdadeira do amor.

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