Aqueles olhos tornaram-se coração
em uma tarde tumulto
foquei meu lado humano à vista do asfalto, do fato
à vista da prestação, meus óleos não mais me veem
aqueles olhos outros pediam mais que uma guarita de fim de marte
pediam sede de justiça no coração de súplicas de arde tal qual tarde
me olharam, quando no ônibus fiquei pasmo
esperava a dor engarrafada da afonso que dá pena
em seu corpo talhado de chagas metálicas em movimentos de cena
e meu entendimento tosco que entende nada
eu conheço esses olhos
estão em mim como marcas de meu amor e ódio
a garota magrela e suja olhava-me
e eu olhava-me também mais uma vez
não havia ódio em sua expressão
nem mesmo pena de sua condição
havia a verdade maior e dominadora do capital
havia a certeza de outro carnaval do bem e do mal
fiquei com vergonha de não mais me pertencer
queria sair, fugir, correr...
os olhos infantis olhavam-me e soltaram em minha direção um grito novo
um grito no centro do coração do povo
do banco do ônibus meus olhos choveram
e sorri por sentir pena de mim
ela sorriu para mim, acenou um adeus e olhou para o firmamento
a cara da pobreza é a cara da inocência.
Tomate de rodas também anda e saímos do ponto
agora eu aliviado, mas sem saber porque e nem para que
me sentia emocionadamente nada
ao vir no ponto a figura de uma esperança faminta, menina esquisita, e nova como eu
que via
via num ponto de ônibus a figura reinventada de Deus..
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