subo a noite eterna em direção a casa
já com sono olhos cor de areia
quando te vejo entre névoas e fumaça
a acarinhar o fragor da noite
linda mulher, peito gentil, dama da noite que me acompanha
subimos a ladeira juntos e
pergunto por seu corpo tão bonito
diz-me de outros mundos e ela sorri
e cobre com véu o segredo da madrugada
corre na frente e não o nome
eu corro também porque quero telefone
como uma joia dessas anda sozinha em meio a tantos perigos, tantas músicas baratas
tantas joias de lata estragadas pelo tempo e carcomidas em jardins
tanto tempo sem te ver em mim
saio em busca dela
que para e olha-me dentro de minha alma
eu digo que sou dela
ela me diz que já era casada e infeliz também era
e que de surra em surra sumiria dali
um dia pegou a foice e fez o que devia
cravou no peito do cruel marido
mas depois arrependida,
saiu e nunca mais se viu a sua figura
beijamo-nos
ela agora minha, eu todo dela
quando o dia engatinha
quero pagar um café
ela se vira e nada vira
me deixou sozinho na escada e voou
num sei mas vi algo maior subir igual pomba de ar
ela me disse
naquela noite jurei me matar
e pulei no rio
minha pele se abre toda e digo
como falas comigo
ela responde
porque és tu a encarnação de meu marido,
manhã. volto para casa tonto e sedento de cama
vejo um cortejo, sigo-o
na porta do cemitério o caixão é aberto
e qual minha surpresa diante do defunto mulher
era ela, que em sono existia
chego-me perto e alguém diz
conheces a moça?
eu digo só de vista por que
a pessoa responde
morreu há dois dias e trazia na mão nome que ninguém conhecia
abaixei-me e peguei em suas mãos um papel
ela escrito Gabriel, era eu que ela nunca vira
era eu a sua alegria
não tivera marido ou filhos
sonhara comigo a noite toda
e mesmo depois de morta
levava consigo minha identidade
sorri de medo e sai tresloucado
dormi
e hoje ando na rua a procura da flor
que me conhecia sem me conhecer
que morreu e de tanto não me ver
que morreu de amor sem ter tido
que poderia ter morrido de tifo
mas escolheu morrer de não conhecer.
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