terça-feira, 5 de agosto de 2014

SOLIDÃO 1

Todos os dias dormia fatigada pelo trabalho, acordava e via nada
nada via porque ali não havia nada para servisse ver
mas sobressaltada que estava dizia a  si mesma que se tratava de algures, outros olhares
corria ao,portão, na rua, no chão, não  tinha  nada que lhe restituísse a calma
trabalhava dia após dia numa semiescravidão
-eu sou a lua  da noite eu sou a rosa do dia, dizia isso em pleno meio-dia
e só assim podia ser, seus fantasmas do passado, suas angústias do presente
o pressentimento de que algo maior a requeria, o portão batia mas na rua nada via
seu quintal agora imenso pedia sua proteção, as folhas a queriam, o muro era dela e ela não sabia
Assim, passados anos de valentia frente ao que não conhecia, assim vivia, não distinguia realidade de ficção
seus imensos olhos de ternura na noite escura procurava por barulhos, mas só se ouvia ao longe o ruído de carros, risos em outras freguesias, festas pobres e caras com cara de gente rica, gente mal vestida fingindo ser feliz
cada vestido que vestiam assoavam-lhe o nariz
a solidão carrega flores de plástico para novas eras, novos mundos que  tanto quis e já não era
de muito só que estava não fazia comentários com as sombras que riam, não procurava ir ao sol
porque  já o desconhecia
as paredes de concreto armado era seu favorito braço em um barracão pequeno, virado, armado  de traça
em uma favela de prédios imensos, feitos de ossos que tagarelavam e nada, de muitas mágoas, e dinheiro que só se gasta quando se espera  o fim de um sórdida piada
O marido desaparecera na compra  do cigarro, os filhos só diziam olá uma vez por ano
o bichano, ela não sabia se era verdade que existia, mas ali estava e sumia ela ou o bichano
só se viam a toda hora em todo engano dado por falsas impressões
não sabia mais quem era, isso já não tinha importância, separada pelo tempo dos que amava
sozinha no quarto onde estava, era o seu mundo, se tudo, sua capa de riso e fúria, sua passagem sem volta pela loucura
quando o dia amanhecia, saía de um lado, revirava o corpo e saia mais uma vez para ver quem de fato existia
Uma dia escuro de nuvens frias a levou, e sua alma junto com o bichano para o céu voou
em sua casa agora de lua, em sua nova madrugada fez de vez da solidão sua nova namorada.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A RAIZ

A raiz perfura a terra em busca de segurança, a raiz da planta é semente de tentáculos partitura ainda criança
e na palma do chão realiza seu modelo de fórmula da invenção
a raiz dança em um movimento  que não se percebe, quase imóvel sabe que o seu tempo é imenso, enorme
a raiz inaugura a terra fofa, dá a desforra dos vegetais, silencia o mundo quando viva está no fundo deste quintal
As pedras se apresentam inimigas, mas as contorna como água de dique que lentamente explode
não há liberdade debaixo da terra, nem felicidade que se encontre em qualquer era sem nome
estrela da terra, o contrário do sol, mãos subterrâneas a criar grandes antenas de esperança caracóis
vieste do pó e ao pó voltarás- a raiz nem sabe disso, a raiz da planta é um guizo a rir em árvore nova
trata de assuntos correlatos com minhocas, conhece o tatu e por isso não o toca

a raiz é a própria toca do tatu, ela sabe de outros túneis de terras, outros tabus
a raiz agora já atinge seu ápice, a raiz traz em si o nome que lhe cabe, que lhe compete a arde
o mundo voltas dá em torno do olhar humano, grandes construções de concreto criam raízes
em seus pérfidos narizes, em sua boca matizes, em seu entorno me dizes que o prédio copia a planta
A raiz pretende a china , calcula o tempo que lhe cura a sina
a raiz ri da gente pois gera em nós o descontente porque de fato não nos contentamos em ser donos do mundo; tão humanos, e quando perecemos, dormimos ao lado dela, a razão humana no ponto de vista da raiz não presta, não lhe serve para nada, raízes debaixo da escada
pensa consigo a raiz em sua razão desconhecida, pensa no que haverá de nova vida, vê então os dias passar e em suas pernas pelos verdes que desatarão o mundo
olha a raiz adolesceu,sofreu de desesperança, chorou qual se cansa e vê que não é mais a que procura o mundo vermelho, saem-lhe verdes gotas dos joelhos.
do lado de cá uma planta nasceu, inda era madrugada quando enfrentou a lua cheia e formou-se, destacou-se, esse seu outro lado também procura o céu, como nós todos todos os dias em vão procuramos e de nós saem novos ramos, novas constelações de fel.se abrem como folhas e flores
a planta é a casca da raiz, sendo então seu outro lado, fica toda aparência e experiência do vento
a planta sente vergonha da raiz e faz confidências com borboletas
pode-se dizer que a raiz é a roupa suja que encanta,
os dias passam e a raiz não chegou  à China, mas como não pensa e não sofre, lentamente se desenvolve
até que um estúpido que pensa que pensa dá-lhe uma enxadada, raiz e planta agora já não mais vivem
raiz e planta secam e virarão fogo e subirão aos céus, se tornarão uma e outra nuvem de papel
E nova mente descerão ao solo sob forma de intensa chuva, para criar novas raízes, menos falsas, mais profundas.


domingo, 3 de agosto de 2014

RAP PARA BEATRIZ

Eu vou cantar um novo rap., um rap feliz
eu vou contar para você, o rap da Dona Beatriz
vive hoje sozinha etérea porque desde menininha cuidava dos irmãos
a mãe bebia, o pai traficava, a irmã então já se prostituía
E ela cansada de sua vida amarga olhava a madrugada cinza e sorria feliz
Beatriz à beira do barranco inda menina olha a estrada infinda e volta a casa
sua casa agora chovia e ela e os quatro irmãos desafiavam a vida e seguiam
Já com 15 anos, muita covardia no colégio, os colegas riam de sua cor,
de sua pobreza, lá no fundo Beatriz, diz com certeza que quem ri por último ri  para sempre
e seguia em sua falta de tudo em sua posse de nada , catando  comida aqui, lavando louça via sua família com dor
Um dia, Beatriz, dizia consigo sozinha no corredor do presídio escola, hei de ser madame e hei de acabar com o vexame do preconceito e da falta de sorte
mal sabia a menina que, quando convidada para um festa virou alvo de chacota e chorou um rio em duas madrugada sem pote
Beatriz só ficava em casa, calada, dona de um imenso mundo interior que abraçaria o mundo de verdades
Cresceram os irmãos e Beatriz já não mais lhes servia como guia, desprezaram-lhe então
A mãe já morrera de tanto beber,  pai assassinado no tráfico
Beatriz a viver de favor onde sempre colocou dinheiro, preferiu então ganhar o mundo inteiro para aliviar sua dor
O mundo, esse , abraçou Beatriz com um forte abraço farpado e a ali moça feia que era  via no mundo grande embaraçado  suas veias gritarem de dor, quando de Beatriz via  tão somente ela seu valor
virou-se, fez faxina, cozinhou para um loira sapecada, não caiu na vida porque sabia que a vida a abarcaria
Beatriz virou mendiga, um grupo de rapazes brancos, certa noite, a estuprou,bateram em seu corpo, sua dignidade pensaram que levavam e ainda disseram que ela teve sorte de não ser ali mesmo apagada deixaram Beatriz agora embarrigada
Quando tudo ao redor virou porrada, seus olhos, mais que nada já desistiam de viver
Foi quando viu no lixão uma apostila, e começou então a ler
nove meses se passaram  e a criança de Beatriz veio ao mundo, o grupo de mendigos esfarrapados fez festa, num só lance Beatriz viu todas as suas festas
e disse, , vai se chamar também Beatriz, mas será outra não a que eu fui
Um concurso do TJ abriu-lhe então as portas, foi toda humilhada, ni último banco da escada ficou a escutar o resultado
Beatriz agora era primeiro lugar e não mais via os rios brancos de si a caçoar
Beatriz agora é madame, a nova Beatriz menina frequenta boas escolas, anda em carro do ano
Não tem companheiro a velha Beatriz, quer sossego, felicidade e poder ser gente  sem as correntes do passado a lhe ferir a cicatriz
Quando dá festa, grita em gargalhada em meio aos mendigos de sobretudo,  muta alegria ´é tudo e
que finalmente o mundo conheceu a  verdadeira Beatriz
leva a filha ao altar, vendo-a casar  advogada que já era
Agora, Beatriz está velha, olha para a vela artificial de seu luxuoso quarto
e desata a rir e diz: eu venci quando era para estar morta
A Beatriz vida dos outros pouco importa
vai até o jardim, pega, uma flor , coloca no cabelo e despede-se  do mundo
não como um ser tratado como menos , mas como Beatriz que venceu a maldade e é dona dos próprios venenos
Beatriz cai no jardim, Beatriz agora é anjo e vai lutar combates novos em novas searas
sua passagem por aqui foi de ouro, não de lata.
Este e´só um rap para Beatriz, que todos diziam que seria infeliz, hoje vive nas nuvens, nos sorrisos dos netos, e lá do nada diz confiante, em golpe de ar num instante que hoje, finalmente é feliz.







sábado, 2 de agosto de 2014

SOL

No dia em que o sol invadiu o frio eu me vi de novo vivo
pois este movimento do mundo revela o que de vida existe em toda arte
o que de humano se desfruta em toda parte
e o movimento do mundo se instala tal qual rio nilo

Eu que queria subir o Everest agora subo  a montanha da palma de minha mão celeste
grutas subterrâneas, caminhos que se cruzam em mãos ininterruptas
pernas que correm e zombam umas das outras como ostras em  movimento
o jardim de Alá é aqui e cá fazemos de nossas vidas uma leitura de mãos vazias
de nosso olhos, pura covardia quando então não vemos nos outros valor e dia
nosso furor é resultado de nossa pífia leitura das cores e dos ouros que não são nossos
colocamos nos outros a culpa de nossa própria amargura
não há amor que traz cura, não há desejo que perdura em meio ao caminho da pedra dura
desde a palma da mão lida até os pés que descobrem a melhor pisada
seu riso irônico desaparece diante da absurda realidade que se instaura
no mercado verde alguém há de ver-te a correr por sobre a aliança do imperador
alguém que não conhece por inteiro insiste em te pedir dinheiro
e o vácuo das banalidades reacionárias é o caminho prefeito de quem não nos diz nada
E o sol insiste e perfura o vácuo trazendo alento neste dia de sábado
mais que uma canção esperta que fugiu do vinho
menos que a pessoa certa em seu escuro caminho
estes versos de ressurreição hão de abalar os raios de inexistente solar
da porta da casa se vê o absurdo da vida em cachaça e misoginia etílica
da porta do trem não se avista ninguém porque de escondido se encontra em cada olhar de inferno
No passado do inverno, na colher se sopa quente a nos desviar da cilada
em cada palma de mão há a história de todos nós como que em leitura vista
esse medo enorme de um Bela Vista, essa realidade que nos insta
as ramificações do sol em sol me faz menos animal
as falas ditas no silêncio agora encontram eco na primeira cigarra
o inverno deixou de ser para se tornar madrugada
e na palma de sua mão há de flores de papel mascadas
falsas também tanto quanto suas namoradas
imenso dia que inaugura o sentimento dos dias a nos dizer que vale a pena viver
pois o corredor de tudo é a possibilidade real de futuro
salve o sol de ontem, hoje e do futuro.






sexta-feira, 1 de agosto de 2014

RECEITA DE COMO DESTRUIR UMA NAÇÃO

Fabrique um deus de mentira, castrador, moralista e dono das vontades dos ricos
Deseje o bem a seu próximo, desde que seja de sua turma
não se esqueça de uma boa pitada de intolerância.
Diga a seus filhos que eles foram eleitos por este deus e que é inevitável a guerra-santa
coloque nas mentes juvenis uma colherada de idiotice feste-food
Diga às gerações que elas nasceram com mais direito à felicidade que outros jovens de outro povos.
Não se esqueça de lançar filmes B com cara de A em que barbudos mal vestidos atacam crianças estadunidenses.
 Leve uma pitada de ódio diretamente aos movimentos contestatórios e despeje sem dó
vá a uma igreja e grite em nome de quem veio aqui e pregou a paz, mas não se esqueça de pregar o ódio.
Compre quilômetros de jogos de video-game em que um idiota mata , simplesmente porque é bom matar
Mostre a capacidade de civilidade que você e sua família tem,por exemplo, dando sopa a pobres e cuidando de inválidos, desde que sejam os seus estes inválidos.
Incite o natural ódio contra as minorias dizendo que é vontade divina
Diga que a guerra é justa e que em briga de marido e milhares pode se matar a vontade
Desfaça os deuses de outras religiões, ridicularize todas as religiões, desde que não seja a sua
banalize o amor como se fosse uma droga que se compra na esquina, banalize a dor, dizendo que é necessário matar em nome deste deus construído.
Compre muito, compre a loja toda e mate dentro de você essa vontade de chorar porque vazio
compre um alma ou a venda nas imediações, mas não se esqueça de comprar e vender e de colocar a venda nos olhos.
também não se esqueça de criar uma pequena faixa de terra miserável, mate covardemente mulheres e crianças, mas diga na globo que a culpa é delas porque renegaram seu deus de inverdade
brinque de golfe com corpos de idosos, crianças e mulheres, diga ao mundo que é inevitável fazer justiça com as próprias armas, desde que sejam as suas, é claro.
jogue ódio sob forma de bombas e foguetes e aja como se fosse com um bom café da manhã oferecido ao outro lado do globo.
ah nunca se esqueça do Globo e da Globo que faz seus filhos lobos dos próprios irmãos considerados tolos
Vá a um terreiro ou igreja e destrua imagens , não deixe de revelar que só existe um deus, o deus de quem tem carro, mulheres,ódios e apartamentos,
 e que esse mesmo deus diz todos os dias que quem nada disso tem é um fracasso de pessoa e que não deveria existir, portanto
Diga que arte é coisa de gente vagabunda e faça sua contabancária imensa, profunda, e, não se esqueça de matar em si sua vontade de morrer e morra com com tarjas-pretas de hora em hora
Seja a própria infelicidade do planeta, mas ria e sorria porque filmado, a todo instante, todo dia
coloque um rock in roll-on debaixo do braço e mate que não te mataria
seja eternamente infeliz, mas viva em nosso século como se fosse a Idade Media do dia
seja noite para todos e sol para seu egoísmo, e grite na sala,quando a burrice gritar gollllllllllllllllllllllllll:
Desde de que nasci esse povo briga ,  ademais, nada temos com isso
nunca perca o juízo antes da meia-noite, nunca grite, nunca seja nada, seja sempre o nunca
e diga no dia seguinte que esse seu deus escreve certo por linas tortas
mas não se  de que o tempo passa e , no futuro, serás objeto de execração e de riso
porque ignorou o sentimento de nossos dias
Por fim  , jogue a última pá de terra e desligue a televisão e vá gastar no shopping de quinta
seja então eternamente infeliz e nunca se esqueça de fazer a infelicidade alheia
Parabéns: acabas de matar um povo em nome do seu












quinta-feira, 31 de julho de 2014

OS OLHOS DE BRIGITTE BARDOT

olhos de água cristalina que do rio rompe-se em cachoeira
fina pele de outrora agora em veias se abre e se mostra
ser amiga dos aminais muito antes do envelhecimento
ser dona do olhar  e da consciência da maldade humana

Seus olhos são os de Brigitte Bardot,. nesse mundo velho sem vinho sem champignon
que são também os olhos feridos de Gaza, faixa imposta e importada
uma casa nesta noite virou ar e crianças gritam por toda parte, serão sangue do inexistente combate
não há Deus algum que as salve, nem os olhos imensos da atriz,. nem a tela de cinema
nem o grito surdo do chafariz da praça, não há taça em meio À DESGRAÇA.
a Palestina pede por socorro, mas o mundo em um acordo infame prefere ignorar
os olhos imensos que cuidam dos animais que, agora choram por cine cor
serão os olhos de flor? Da dor? De comoção do valor?
serão novamante os lindos olhos da Brigite Bardot
um brado se ouve no deserto
a atriz sabe que a verdadeira beleza não se mede pelo tempo
e já ,Há décadas, cuida dos seres irracionais como forma de se alimentar e continuar por aqui
saber-se do mundo porque reconhece a passagem do tempo e a inequívoca hora
a hora maior em que todas as injustiças serão julgadas
e todas as balas disparadas encontrarão o caminho de origem
em que todas as bombas em Israel devolvidas explodam de facto
o fato maior são seus olhos imensos na tela do cinema
sua pele macia de senhora conhecedora dos segredos abismais
sou eu, é você a rir ingenuamente no fundo deste quintal
são notícias de guerra, são palavras aéreas
são cabelos imensos, olhos  novos velhos poemas
são as cadeias imensas de montanhas
são animais mais que gente agora em segurança
são brigitte bardot, os olhos da esperança.


terça-feira, 29 de julho de 2014

VIDA-QUASE

Meus pés quando correm obedecem às ordens do mundo
correr e nada falar, observar o que de natural preside o mundo
saber-se suado e novo a cada pingo do movimento montanhês
A cada passo que falho, não falo
a cada passo que acerto sou  de novo descoberto

Minhas mãos traçam a alegria do tempo e do espaço
minha mãe é uma pessoa que habita o coração, o presente e o sonho
minha irmã e minha família são o imã da minha dignidade

Eu canto e minha trêmula voz corre e abafa a maldade das vivas pedras
minha oração pretende novas eras e  esperanças de coturno
minha ação pretende nossas serras e terras de fogo e ares soturnos
a nos oxigenar, a nos orientar na busca por dias maiores de alegria e de suspensão da queda

eu vivo o presente como uma descoberta de mim mesmo no espaço da memória
calo que me dói quando me calo
sapo que de tanto falar explode
rua que de tanto deserta vira oásis
vida que de tanta descoberta vira vida-quase
oriente minha paz, faz de mim nota absurda de jazz
vida perene em rio que seca, meu riso me refresca
minha paz me encobre de suas falsas ofertas
meus passos me colocam em mim, mais que em ti
meus passos são tão falsos como a dor do existir
vida nova, vida de folha de árvore a decidir o melhor caminho para meus cansados passos