Suspensas todas as roupas no varal o sol a queimar a esfera
ela cantava a canção da invenção de todas as eras
em belos tons que melodiavam azul
faziam das lágrimas nuvens da América do Sul..
Quando irromperam em sua casa os cães
buzina burra de latido em seu ouvido
seus petrificados olhos nunca queriam ter ido
gritos se ouviram ao longe em sua casa alarido.
Ela chamava pela celeste chama de deus
marcas imensas aladas todas no corpo céu.
Os cães não queriam música, latiam ferozes na rua e subiram a rosnar no patamar
destroçaram-lhe as carnes e ela continuou a cantar
surtaram--lhe a mente e ela em agudo estridente fez a terra corar
as pedras dela tinham pena, o possível cantar de seus poemas
arrastaram-na, berraram que valia nada
mesmo assim a queriam viva e calada
poderia viver o quanto quisesse desde que não mais cantasse.
Puseram-na em um carro frio ela cantou seus tristes calafrios
irritaram-se assim e lutaram entre si para ver quem a calava
com argumentos tentaram silenciá-la
subiam com ela e desciam em tortas escadas e ela maior que todos cantava
seu canto se ouvia ao longe e se misturava com o cantar dos sinos roucos
em uma cela escura por ter ousado cantar a óde de todos os cantos loucos
a mulher sofria pela saudades dos tons corretos,
gritava a matilha dia e noite para que se calasse concreto
seu umbigo em notas desfibrou
parte do seu violão empenou
mas a mulher cantava sussurros
e irritava os donos do lugar nela murros
um dia de torturas e privações para tentar ensurdecê-la
quando viram finalmente que seu canto se calou
conseguiram o que queriam, ela era mármore calado
quando do alto de um jacarandá cantou o seu imenso recado
um canário ela se tornou e cantou em flor, desafinou o ódio com melodias de amor.
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