O sino da igreja marca a derradeira de hora em hora
me irrita toda batida, que me lembra de nossa vida e morte
por aqui você é praticamente obrigado a gostar do que te oprime
por aqui vale mais um esgar nojento à passagem de um desconfiado amigo
do que a sinceridade desprovida das falsas carnes da aparência
por aqui só se fala em morte aos montes
como a pessoa morreu, a que horas irá enterrar?... o que disseram o vizinhos?... havia muita gente chorando?
o ponto de ônibus,lugar ideal para isso dada a eficiência do serviço de transporte, nele horas seguidas a ouvir o desnecessário do outro
passa a ser o lugar dos relatos e das sórdidas confidências daquilo que nunca se soube e não se sabe
A ideia de morte e de tragédia acompanha este lugar
por onde se vá só se ouve assunto assim, como se aqui o mundo tivesse acabado primeiro
havendo um insistência para também o resto do mundo acabar
Mórbida insistência de um povo infeliz, sem lazer, sem querer ter lazer, sem saber o que de qualidade é lazer
torna-se então escravo do sofrimento,
e um sofrimento individual torna-se municipal porque a única moeda trocada é a moeda de quem diz asneiras com cara de verdade
Existe esse "dizem que",proferido e que faz referência a alguém que ninguém conhece e que foi motivo de toda a centopeia de impropérios que também ninguém conhece, ninguém viu,pois que daqui saiu, ou por aqui nunca esteve, ou se esteve , deixou choro, lágfrima e no final apenas vento.
Porque falar somente de morte se tudo insiste em viver?
se a flor ao lado do senhor que destila sua desgraça alheia, porque da própria não fala em seus lábios rachados
insiste, essa pequena frágil forma, em viver e dizer que a vida merece ser um banquete
repleto de jardins
Aos urubus do ponto de ônibus há uma nova legenda:
Aprendam que viver é um eterno ato de morrer
basta observar as flores e os insetos em sua luta constante por estar aqui e em pouco desparecem silenciosamente,
E não dão lugar a esse choro chato, essa lamentação cotidiana, essa chatice coletiva, essas lamúrias de quem não fez nada para melhorar a própria vida, então se vê no direito de profanar a morte alheia, dizendo então dos detalhes de que não conhece, histórias que nunca ouviu falar; mas conta como se ali estivesse no momento e no lugar ; e como se o morto fosse quem contasse da morte do outro
ponto de ônibus como caricatura da desgraça alheia, sendo então a maior desgraça a incompetência
de quem não enxerga a esperança nos olhos do irmão trabalhador, de quem não trabalha a própria dor
então só resta do outro a morte e o desconhecimento da vida que este levou
simplesmente ficou súbitobom ou não prestava no julgamento do tribunal do ponto de ônibus
maldita gente que não enxerga
maldita gente que, somente tal qual gado ,espera o juízo final
e acreditam e flores de plásticos e objetos imagina´rios e se esquecem da vida que pulsa, inda que pequena, ou sob um zumbido, um latido, um pedido de trégua
um choro convulso há de despertar o urubus do ponto de ônibus, irá faz~elos entender que também são gente e direitos também têm
e que falar da tragédia dos outro de tarefa de ninguém, tarefa que se perderá quando este lugar mudar.
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