domingo, 6 de abril de 2014

O QUARENTÃO

Desceu aos infernos e dançou a dança do mundo nos cacos de vidros
subiu a montanha da existência como água que se desprende dos imensos lagos já suados de tanto castigados pelo sol
desceu quebrado, fragmento, subiu novo, inteiro sem tempo, enredo ou delicia
redescobriu-se aos quarenta, tanta energia de jovem, tanta incredulidade do tempo

A idade do jazz se abre no leque da imperatriz como um segredo na pedra de esmeralda
ser um lobo em busca de sua alcateia morada, busca de sua cara loba metade amada
rapaz solto envelhecido como vinho tinto, os primeiros cabelos brancos requeridos pela neve
os novos sorrisos que dizem até breve, as primeiras dores a dizer-lhe que a hora é certa

a certa hora nada mais que as pequenas descobertas que alimentam  o mundo se lhe apresentam
a pia quebra, a água jorrada, a falsa cara amada, cadeira caiada, o veneno da madrugada
, meu amor não mais se distrai
envelhecer é para sempre e para nunca mais, não mais sol, não mais os ais, não mais arrebóis, não mais. Nada no não mais
Agora que é  lobo também guardião de todo seu imenso corpo disposto no lugar
agora já pode amar pode conhecer a essência desta transitoriedade das esferas
sabe que já passou seu tempo de fera e reflete acerca da cerca que separa os seres, os encarecera
Ter quarenta e tais em país de quinta é como vencer na vida sem ter um centavo
pois que de miserável sobrevivente das ciladas sociais lançadas
quantos homens ao quarenta chegaram assim?
Tão donos do seu segredo, tão ignorantes de seu poder?
o lema é a vida, essa imensa que me eleva jogado como tinta que macha a parede de neve abrigada
como asas que se abrem ou que se aquecem no frio da outonada
chegou à estação derradeira, mas isso não é morte , ceifadeira, mas luz radiante instante
mas engolir  da vida as possibilidades, ser senhor se sua for a vontade, uma alegria que a alma invade, uma necessidade de saber de outras verdades, uma insistência em viver noutras eras, uma nova idade
são novos voos, quebra de velhos muros em busca de um grito novo de amor
que se espalhe como novo baobá, ter quarenta, se sente como semente que semeia o dom de estar
que meu sorriso não me abandone
que minhas alegrias nunca se sequem
que minha dor seja minha eterna namorada
que meu país, minha idade, neste corpo seja então minha nova já conhecida morada.




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