a vida abandonou-se na cortina de quarto sórdido de aluguer
mesmo assim lá fora a vida das pequenas coisas insistem te ver, em viver
passarinhos no seu caminho, no seu caminhar ao longe
Um sapo chegou-se para perto da lua
e desfez um desenho escuro no farol do carro e subiu com sua viola para o céu no papel
daquela árvore da vida
os seres ínfimos dizem da vida muito mais que uma boca porca a contar mentiras
basta observar o cotidiano, a vida e sua manifestação, para saber-se nada em meio às coisas demais
Recortes da natureza em folha azul escuro de papel da paisagem do dia
ninguém vê porque não se visse não teria valor, e pacientemente as pequenas coisas trabalham e sepultam a covardia porque nada sabem dela, e nada sabem de nada a não ser de si mesmas
A túnica da noite encerra o dia em fantástico fusco-fusco e as pinturas naturais mudam e o homem pensa que não passa como tudo o mais
mas o tempo lhe mostra que as pequenas expressões também nos fazem querer viver porque sabem de sua transitoriedade.
A vida é uma grande árvore bobá a nos ensinar a amar, um grande susto de existir, uma consciência nova
um trabalho árduo como o das formigas que espalham-se e desparecem como surgiram
uma dada borboleta nasce pela manhã e deixa o mundo à tarde
um dado homem acha-se eterno porque almeja ser deus em seu pequeno círculo, no seu pequeno degredo capitalista
pobre ser que não sabe viver como as coisas materiaisanimais e vegetais
essas sim, vivem e sabem o valor de um átimo, , de um átrio, de um assombro, mesmo que não se perceba nelas
temos a capacidade de nos assombrar diante do belo e do feio, mas não reconhecemos nossa vulnerabilidade, por isso não vivemos, existimos tão somente,
semente de ilusão, presente mal dado de presente.
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